com quantas Giseldas se faz o mundo?
não é bem uma pergunta
é um peligro
Giselda, Giselda
gir’absoluta
de batom e chocolate atravessamos a marginal
e nos rimos das situações das nuvens e dos preços altos
hace tiempo não nos cheiramos
Giselda é feita de compotas e cremes místicos
de orquídeas e de nutella e de peito de peru, que ela gosta
minha tia mais mãe mais gostosa e jaca madura de gomos dourados
meu iglu
ela que era a fruta mais radiosa
do céu o raio cor-de-rosa
foi pro freezer dos inadequados
- fazer companhia pro pernil
um doce flamingo em neon que ninguém não queria em riste
foi virar o alpiste
na tevê
no frontal, debaixo da cruz
ela de franjinha aos 17
segurava o álbum branco do francis himme
no tempo do vinil, que agora retorna
ai, minha tia me ensinou
a ser uma flor ridícula
excêntrica e expansiva
e me deu fome
de invencionices mil de farras sem caretices
de tardes tão nossas tardes
depois do bamerindus
na Pamplona reinventando nossas peripécias
duas cretinas...
amigonas
com ela comíamos feijoada na chinesa, eu e o lucas, meu irmão
e pulávamos todos os sofás de uma década inteira
embrovámos muy confiantes canções americanas
no rádio da lavanderia
Giselda, aveludada compañera
Guardava meus segredos de juventude, mias borboletas
nos confidenciávamos os cigarros e as voltas insones no uno
revezava com lucas e caio nos hospitais nas tais crises de pânico que sofri
e tardes de cócegas na velha tita sua mãe, minha avó
minha mão, a titã
Gi, e se esvai a areia colorida da enorme ampulheta, uma robusta senhorinha
embora desde criança em fotos sépias sempre sorrisse com suculentas bochechas
Gigirina, exuberante e raríssima estrangeira de cabelo vermelho e botas de
cano alto
uma bela duma sirigaita que gostava duma bagunça
duna beira-mar branca de leite-de-rosas, a colônia todinha
com ela aprendi a ser esse tipo de gente faceira
a ser artista e amar as mínimas peripécias transgressoras
a gostar de trufa, música erudita e danças estranhas
é ela a deliciosa tulipa
tantos dos meus dias mais tenros os melhores e inalcançáveis e mais
seguros momentos
até aqui
Giselda escarlate
o amor está naquela lata de pêssego com creme de leite
e a gente vira essa tarde ouvindo caetano
e rindo desses desenhos bestas que eu fiz de vocês
o amor está naquela gaveta escondida
onde estão guardadas nossas cartinhas recém-letradas, nossos rupestres rabiscos, imagem sua
com bracinhos sem dedos
numa imaginária piscina de giz de cera
e nadamos pra bem longe, Gi
onde a vida seja o que a gente queira
com aquele você-sabe-quem