segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Situação Periclitante






Num mundo submerso, nos correspondíamos. Às escuras, poetas na neblina das relações.
Cabe ainda outro espaço, mais abaixo - submundo - que é a minha fantasia.
À beira de suas praias, passeamos. Nossos corpos engatados ao jeito das sílabas, tão gastas em tudo o que erodimos, contemplando...
Serenos, nos temos.
Cabemos e fluímos na pronúncia do que somos.
Fantasio, em verdade, com teu eu-lírico, e diante de toda essa tua fluência, enternecida emudeço...
E afasto mansamente as coxas de meus versos, para que se façam úmidos na tua bela poesia.

Cachola Quixotesca

Que em sua fluida existência
Não toca
Nem com muito esforço,
A ponta da cauda das gentes-cardumes

Que ora expõe
Seus queixumes,
E sob violáceas tardes, traça
Tecidos de argamassa
Seus devaneios pontiagudos

Da mulher dentuça
As escamas antigas.

Ela, que de humores vem sortida,
Leva-se numa frequência própria
Tão distinta desta escandalosa correnteza...

Corrente, não!

Cor-ren-te, sim...
Adjetivos,
Na cuia do existir, os prefiro.

Cachola Quixotesca,
Diz-me silêncio?
Fechou-se o portal,
Compreendo.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Para os ilustríssimos notáveis e distintos senhores que brilham nas instituições de nosso século


Gerações de comer-cagar-cagar-comer.
Estufados de sua forma-conteúdo, com todas essas estranhas porcarias sempre à boca; dizeres falso-profundos, repugnantes chicletes já gastos.
Vejo sonoras mandíbulas remexendo, pensam-se graciosas, ouço-as: barulho, apenas.
E quanto mais diplomas acumulam, mais estúpidos canudos de veludo no meio de seus ocos fétidos, não, não os supracitados buracos, não... antes os fossem... falo do Vazio, da condição que nos põe a manjares de vermes - nobríssimos vermes, por sinal -, como falo das traças a corroer seus tratados identitários.

Vocês que mastigam e cospem pro alto as suas experiências serão os pais de família de amanhã.

Vamos ao shopping, amor? E aí nos distraímos d'angústia que encerra nosso lar, que perturba nosso sono, que aumenta nossa pança, que nos aperta - miúdos - aos domingos, e nos entupimos de importadas tranqueiras em embrulhos festivos?

Vamos ao shopping, amor? Para esquecermos que já fomos outros, e nos poluímos duma outr'essência - mas tem sorvete no próximo quiosque, que bom!-, e nossos sonhos fizeram-se requintada sorte de frios na geladeira, e aquela sessão de cinema cheirando a ovas e azeite trufado a preencher o que não mais se preenche, o que da vida já foi-nos tomado.

E o aparelho portátil, oráculo aos dedos, a mantê-los bichos cabisbaixos de assuntos banguelos?

E os assuntados - tamanhos ridículos - em seus guetos, discorrendo pomposos seus clichês tão grudentos, tão frágeis, por tédio ou vaidade retórica, esgueirando-se por trás desses escudos acadêmicos...

E a alma?
E os olhos?
E o ver e o tocar e o ser e o contemplar?

Há um abismo entre a aparência dos seres polidos e íntegros e asseados os quais afirmamos ser, e as vulgares criaturas, repetitivas em um charco grotesco de desafinadas e prolixas argumentações, que realmente somos.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

A maior digressão dos últimos tempos

Cachoeira
08.09.13
                                                                       
I

Numa tarde de domingo, dessas que só o Recôncavo sabe fazer, de tampões laranjas nos ouvidos - domingo é o dia oficial dos carros de som na rua - eu tentava estudar aquele introdutório meia-bomba da Chauí.
O café com cevada na caneca, a caneta - tão vagarosa em punho - anotava qualquer coisa sobre as diferentes concepções de Ciência, sem entusiasmo.
Eu, que se não amanhecer inspirada o suficiente para respirar, somente com violento esforço separo minha existência da cama, sinto um absoluto desgosto pelo maquinal, pelas burocracias da vida humana.
Pois bem, lia sem ler, até que uma breve fala sobre Antiguidade fisgou em mim as pupilas do espírito, e tive uma epifania. Extasiada, saltei da cadeira, retirei dos ouvidos os tampões característicos dos trabalhadores que rompem os asfaltos nos onipresentes canteiros de obras nas grandes metrópoles, protegendo seus tímpanos do soar das britadeiras... enfim, corri até a janela. E chovia.

A água salivava o horizonte, Cachoeira.
Eu via o centro da cidade amarelo de sol, quente sua principal igreja. Cá, era um pinga-pinga celestial. Via o morro, outro bairro à esquerda cujas casas desjaneladas quase tocavam a entidade arco-íris, este cortando na diagonal a beleza de minha descoberta.


II

Que sou mais boi que gente, já o desconfiava.
Mas vendo uma cambada de roliços passarinhos cruzando o céu, a chuva e sua coroa policromática, penso no quão anacrônico é o capim de que se alimentam certos seres contemplativos.
Como eu, e todos os outros bovinos.
Investidos numa ancestral cultura de quatro estômagos, estamos sempre a integrar o cenário comum da Terra.
Basta estirar a vista sobre o relento: lá estaremos.
Entre a solidez obscura do solo e os azuis etéreos do céu, pastamos.
Flutuantes sobre a relva, enroscamo-nos em nossas matérias.
E os rabos pendulam relatividades muito além de "sim" e "não".
Graves em nossas patas, somos a arquitetura do perene.
Nosso jeito melancólico de lançarmos o olhar sobre as coisas, mugimos atemporais.
Não temos préstimo, somente somos.
E deitamos cansados sobre a terra o peso de nossas eras - resistimos - e acompanhamos as velhas órbitas deste tão sensível organismo o qual compomos.

E produzimos nossos sacros estrumes: substância da qual nascem as flores-verdades do mundo.

E jazemos sinistros churrascos, em cubinhos nos pratos de robustas senhoras, e instalamo-nos em seus entre-dentes. E quedamos fiapos incômodos.

E após devorados, matâmo-los secretos em suas artérias, matâmo-los no auge de seus apetites, pois jamais aprenderam a ruminar em meio à música digestiva dos Tempos, essa que embala tudo o que vive.

E por não se perceberem vivos, contrários à consonância com que há de mais antigo, ocupam-se em arrancar de nós o couro e tingi-lo e vesti-lo e, ainda agônicos, usam de sua energia tecendo dizeres sobre qualquer verdade de um acessório, agora parte de um braço-existência tão contingente -ela mesma acessório-

e nossa textura os olha do

abismo.