segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Vida social expressionista paulistana

São Paulo, maio de 2013.


escrevo por vaidade e a vaidade me cai bem
perto de mim todos os amigos
asseados, dizem-se malditos
falam pelos sovacos e sobrancelhas

o vinho de 20 reais passeia suas espirais de tentáculos
por entre as tintas línguas polidas salivas inéditas assuntando palavras lambidas
ah, o hálito-erudição... é seco e adocicado
timbres frutados mordiscam as beiradas dos assuntos recortados nos livros
e os cospem pro alto
e grasnam suas semi-certezas críticas
cristãos todos eles
todos nós
pregados na cruz do existir, rindo

esse chiclete velho que são as relações superficiais
os ambientes simulacros estufas de gente
gente estufada de si sonhando realizações, legados


os acadêmicos vestem seus palavrórios


conheço o triste cinza da fuligem, nos olhos do dia
o céu imóvel prestes a trincar de tédio
moendo o que resta dos nossos dentes já tão rangidos
o barulho das entranhas palpitando covardia

se acaso a cidade se convertesse em silêncio
poderíamos ouvir essa canção de ruídos que embala nossa existência
os fluidos se movendo estômagos e seus roncos quase ladros
coração

uma mente epiléptica sai nua gritando os arroubos das suas catarses
há quilômetros de bocas cheias falando incompreensões comuns, mastigam rações de pentelhos desses grandes sacudos, os homens que impregnam o mundo com certezas belicistas
a verdade concretada segue a esporrar nos olhos da gente que queira ver
nos gritos agudos de quem perdeu suas retinas

uns afetados farçosos falando de cultura
como broche que se exibe
diante do diploma de mestrado

já dizia o poeta, aquele farto de lirismo comedido
tal qual bilau infantil enrugado
farta estou das existências esquálidas
da pequenez que se dilata e quer ser grandeza
dessa festa de migalhas

me faz vergonha, mundo insosso

roucos espectros abatidos e leitosos
somos nós rastejando pelas cidades
feios nojosos carcomidos
a cada dia convecemo-nos: livres

livres de liberdade, sim

Um conto de barbárie - Parte I

A claridade ia lambendo, uma a uma, as telhas da casa, e as telhas da casa vizinha a esta, e as telhas da casa vizinha à vizinha, e portas e maçanetas, varandas, e graúdas e diminutas janelas, e num contínuo, alumiando toda a rua, fazia-se amarela na fuligem de uma cidade inteira.
O cantar de um rádio-relógio desprende, de forma brusca, Maria de seus sonhos. Cercada pelo corpo de seu marido, ainda desacordado, ela segue seu ritual, atira-se com delicadeza à atmosfera fria de seu quarto, calça as chinelas e as arrasta até a cozinha.
Passa o café. Engole-o de uma vez, sem açúcar.
Já no banheiro, o espelho parece espreitá-la entre os azulejos azuis. De corpo inteiro, sem moldura. Maria veste-se de pele e pêlo para o banho, diante de seu perfeito reflexo, suas carnes corriqueiras, suas cores, suas belas estrias cortavam seu ventre de um lado ao outro, coroando seu profundo umbigo.
Seu cabelo distribuia-se sobre a cabeça, à sua própria maneira. Era crespo, pelas manhãs. Agora, sua raiz crescia à revelia da tintura.
Maria não ligara o chuveiro.
Estática, observava-se.
As pernas, curtas e roliças, povoadas pelo florescer da queratina. Eram árvores, patacudas. Baobás ancestrais, repletos de folhas, seus galhos conquistando os ares.
Via-os crescer, serpenteando, todos os seus pêlos, enrolavam-se sobre ela, enroscavam-se entre si, tomavam seus joelhos, grandes coxas, sua virilha.
O monte de Vênus, coberto de espessa textura, escuro, grossos e soberbos pêlos o habitavam.
Mal se podia ver seus lábios.
Levantou seus braços, e lá estavam, altivos, os tais cabelos, imponentes como as samabaias, nas dobras de seu corpo, petróleo n'água, buracos negros.
Ela toda, uma galáxia.
E de repente amava, cada mancha-nebulosa, cada constelação de sardas, cada póro aberto, cada protuberância infecciosa. Aquele pêlo encravado, acarinhava-o, entendia-o. Nua, era imensa. E como galáxia, compreendeu sua magnitude.
Ouvia seus órgãos movimentarem-se no silêncio azul dos azulejos do banheiro. Imaginava quais seriam as cores de suas tripas. Amava-as.
Seu rosto redondo e comum, era o ponto alto do sistema complexo o qual ela recentemente sabia ser.

Carta para Florent II


Tô bem.
Comprei algumas galinhas, elas criaram dentes e comeram meu juízo, minhas roupas e meu cabelo.
Encomendei dentaduras... e plumas. Estou grávida de ovos por chocar na mente.
Vivemos sem voar, nós animais alados, no quintal, saudando-nos, nesse idioma animalesco, a cabecinha em direção ao milho, espalhado pelo chão, e o milho em direção à cabeça.
Na superfície há o que ciscar.
Há cumprimentos sacudidos pelo ar, ecoando eloquentes, entre milhos-galinhas-galinhas-milhos.
Há barulho, e só.
Uma pena, embaixo do sol, gema amarela... o lirismo é só um punhado de sílabas amorfas, amarfanhadas.
Cínicas cordialidades, ah, as galinhas vão bicando essas incoerências... em vão... se alimentam...

Carta para Florent I

Caro Flo,

O que dizer?
Que há de novo e velho no além-mar, aí?
Ainda lês em português?
Por onde têm pisado teus pés?

Como estão as mirabolantes arquiteturas de teus sonhos?

E o concreto da tua'lma, tem nele chovido?

E os teus cílios, tuas retinas, tuas remelas?
Como vão tuas íris, tuas cicatrizes?
Qual a textura da carne que veste teu esqueleto?
Sobreviveram teus últimos fios de cabelo?

E a tua boca


Miolo perene do mundo

São Paulo, 03 de abril de 2013.


Contraem-se todos os meus quilogramas 
E os átomos, obscenos
Cada qual em seu próprio transe
Desfigurando esse tecido quase abstrato
Sob a luz do teu quarto

Tal como pálpebra,
Meu grelo

Minha xota ostensiva, assalta a noite,
Corre madrugada engolindo afetações
E embalando as concretudes numa doce viscosidade,
Sobrepõe, por sua natureza pantanosa,
Seu perfume ancestral aos novos e estéreis aromas da cidade

É ofensiva, e nada tem de miúda
Corpulenta, se estende quilometrada em seu próprio negrume
Preenche de carne as arquiteturas inóspitas
Derrama seu leito sobre a mesa de jantar das famílias subnutridas

Polpudo buraco negro
Sobre a cama estendido
Miolo perene do mundo
Árvore invertida