A claridade ia lambendo, uma a uma, as telhas da casa, e as telhas da casa vizinha a esta, e as telhas da casa vizinha à vizinha, e portas e maçanetas, varandas, e graúdas e diminutas janelas, e num contínuo, alumiando toda a rua, fazia-se amarela na fuligem de uma cidade inteira.
O cantar de um rádio-relógio desprende, de forma brusca, Maria de seus sonhos. Cercada pelo corpo de seu marido, ainda desacordado, ela segue seu ritual, atira-se com delicadeza à atmosfera fria de seu quarto, calça as chinelas e as arrasta até a cozinha.
Passa o café. Engole-o de uma vez, sem açúcar.
Já no banheiro, o espelho parece espreitá-la entre os azulejos azuis. De corpo inteiro, sem moldura. Maria veste-se de pele e pêlo para o banho, diante de seu perfeito reflexo, suas carnes corriqueiras, suas cores, suas belas estrias cortavam seu ventre de um lado ao outro, coroando seu profundo umbigo.
Seu cabelo distribuia-se sobre a cabeça, à sua própria maneira. Era crespo, pelas manhãs. Agora, sua raiz crescia à revelia da tintura.
Maria não ligara o chuveiro.
Estática, observava-se.
As pernas, curtas e roliças, povoadas pelo florescer da queratina. Eram árvores, patacudas. Baobás ancestrais, repletos de folhas, seus galhos conquistando os ares.
Via-os crescer, serpenteando, todos os seus pêlos, enrolavam-se sobre ela, enroscavam-se entre si, tomavam seus joelhos, grandes coxas, sua virilha.
O monte de Vênus, coberto de espessa textura, escuro, grossos e soberbos pêlos o habitavam.
Mal se podia ver seus lábios.
Levantou seus braços, e lá estavam, altivos, os tais cabelos, imponentes como as samabaias, nas dobras de seu corpo, petróleo n'água, buracos negros.
Ela toda, uma galáxia.
E de repente amava, cada mancha-nebulosa, cada constelação de sardas, cada póro aberto, cada protuberância infecciosa. Aquele pêlo encravado, acarinhava-o, entendia-o. Nua, era imensa. E como galáxia, compreendeu sua magnitude.
Ouvia seus órgãos movimentarem-se no silêncio azul dos azulejos do banheiro. Imaginava quais seriam as cores de suas tripas. Amava-as.
Seu rosto redondo e comum, era o ponto alto do sistema complexo o qual ela recentemente sabia ser.
segunda-feira, 21 de outubro de 2013
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