quinta-feira, 8 de setembro de 2016

lúcida


como o raio que mata
e acende a ação exata da noite

lúcida para as texturas dum mundo ignorado
para a pele amante

para distinguir conceito criado
de água de rio

para cortar os fios invisíveis
daquele velho assunto

lúcida para constranger a própria lucidez

para ser quem sou
sem desculpar-me por ser muita polpa


e quem chamar de louca

não entendeu nada

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

ainda to em estado de montanha. toda vez que saio não entendo os carros, a estreiteza do tempo, a buzina - pra mim - no momento em que atravesso e 
arrisco os seus compromissos, e acho que não sei mais dar valor à importância em distinguir o verde do vermelho nestas redondas luzes que me acendem a permissão de prosseguir. sãopa

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

o menino caiu de moto na ponte pouco antes do pôr-do-sol de ontem
tinha uma multidão ao redor
fecharam o tráfego
eu fui ver também
espreitei o socorro atrás do X de cobre
senti que mais um coração presente poderia ser um ânimo
pro dele não parar de bater
poema de libertação ou “prefiro você tímida”
o vento é lúcido e está livre do figurativo
e ele só é porque nos atravessa
cada assunto mais coalho
fortíssima, eu me calo e sinto
tenho sido como o barulho dos pregos na ponte
o chacoalhar debaixo da sola do pé quando nela passa algum pesado veículo
um arrepio, o vento é doce comigo
--
múmia
você para mim é eles
não quero quem só me quer de soslaio
ou me abotoa florais camisas de força
eu sei ser muito mais lírica cuspindo na sua cara
covarde
- eu passeio, cabelo de cauda de cometa, como era mesmo? -
múmia
múmia
esquálida e repetitiva
no rico sarcófago
está morta, coitada
“eu não gosto de você quando bebe”
que as instituições legitimem seu corpo frouxo
seu ego escovado seu olhar insosso seu jeito de rio seco
yoga dominical ateísmo exotérico burgo qualquer coisista
um prêmio outro prêmio - enfia no seu coração
eu não tenho assunto com busto
eu não tenho nem assunto,
vampiro
em matéria de dança, sou um desastre
por isso sou tudo
e indócil me quebro em ondas com meu corpo sagrado
o mar não tem coreografia
meta a mão na minha cara
mas não me queira embalsamar por requinte
não se diz ao vento como ele deve soprar
NÃO SE APROXIME DE MIM SE FOR DE MUTILAÇÃO E DE FARELO
a tarde tem um olho furado hoje
alguém viu isso pela lente da cannon?


A vida é se se acorda e faz-se o dia.
E se chove, chovo.
Se sai a lágrima húngara de deus sobre os vivos - a acesa tangerina, celebro. Me estendo de peito e cauda sob a luz, e feito planta, feito réptil, me caliento.
Sibilo os cortes das ventanias, ignoro as teias de aranha no 'ranca-mato de cada tornozelo.
Tenho manejado o silêncio.
De pés nus sobre o barro, o braile do caminhar noturno até minha casa. Decoro o chão vivo que me ama, sem deitar-lhe pupila, porque somos o mesmo.
Ele é quem anda sobre a sola dos meus pés, e me conduz à ponta da montanha do sonho, pra me pôr uma jaca na palma da mão, e uma estrela vermelha na coxa do dedo.
Outro estudo interessante sobre a (im)permanência:
casa, meu pai, é o corpo da gente. e me rio, quando penso que até ele vai-se à terra quando cansar desta superfície.
nada nos pertence.
O resto são cismas e os avessos da língua.



(Nos dias de empatia me abro para os idiomas do mundo, poetizo, planto, palhaceio, corto as unhas, converso. Nos dias de apatia, oração para levantar cada pálpebra e levar a colher à boca.)





Vale do Capão, fevereiro de 2016. Em resposta à última mensagem de meu pai.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015


tudo me atravessa
não há descanso, para os vivos, do dia após dia. a realidade – apesar de muito generosa - esgota. não há outra possibilidade de formas, ou qualquer coisa que não sejam cores e gostos e sons e cheiros e dedos e espumas. dormir não descansa, torna-se parte do processo.
o sol terrível.

as fôrmas que nos engatilham para o sempre mesmo caminho...


te mostro como me sinto, o tamanho da confusão.
você de olho doce, mas não decifra bem a sequência nominal das minhas ideias.
estamos naquele restaurante, eu brado - no auge do destempero - contra as cadeiras de plástico.
químicos e engenheiros do petróleo estudaram por toda uma vida para desenvolver verdadeiros monstros do design, em série. cercam-nos de cadeiras e mesas de pânico, levíssimas e eternas, em suas quatro patas. quanta insônia, quantas provas, experiências arriscosas em laboratórios universitários, phd's. e agora cerca de 30 conjuntos plastificados nos encurralam no ambiente familiar.
sentamo-nos à borda do pequeno jardim. ponho umas folhinhas desse canteiro sobre o azulejo frio: uma folha sou eu, e as outras, o resto do mundo.
de repente
movo-as com dedos frenéticos e finjo que explico esse tudo isso que me embrulha o espírito, ziguezagueio ilógica, cada vez mais rápida, até derrubá-las no chão.


você ri num susto, enternecido.
e eu meio que esqueço um pouco das angústias de ver e ouvir.



Escutamos o barulho do trem
a atravessar o meio da neblina das 4:50 da manhã
eu e Matilda, a gata
sobre nosso colchão

A noite tranquila, perdi o medo de estar sozinha
É uma paz
Mesmo pobre, e às vezes, faminta

Olho para as roupas desalinhadas sobre a mala de viagem
A casa minúscula sem mobília
E agradeço por poder ser simples
Por ter tempo de vadiar sobre as estrelas
Pelo pôr-do-sol de ontem
Pelo pôr-do-sol de amanhã

Por saber-me imperfeita
Como as montanhas erodidas
E que tudo dança debaixo do sol

Identifico-me com a ambição das plantas
Com as vontades dos animais