tudo me atravessa
não há descanso, para os vivos, do dia após dia. a realidade – apesar de muito generosa - esgota. não há outra possibilidade de formas, ou qualquer coisa que não sejam cores e gostos e sons e cheiros e dedos e espumas. dormir não descansa, torna-se parte do processo.
o sol terrível.
as fôrmas que nos engatilham para o sempre mesmo caminho...
te mostro como me sinto, o tamanho da confusão.
você de olho doce, mas não decifra bem a sequência nominal das minhas ideias.
estamos naquele restaurante, eu brado - no auge do destempero - contra as cadeiras de plástico.
químicos e engenheiros do petróleo estudaram por toda uma vida para desenvolver verdadeiros monstros do design, em série. cercam-nos de cadeiras e mesas de pânico, levíssimas e eternas, em suas quatro patas. quanta insônia, quantas provas, experiências arriscosas em laboratórios universitários, phd's. e agora cerca de 30 conjuntos plastificados nos encurralam no ambiente familiar.
sentamo-nos à borda do pequeno jardim. ponho umas folhinhas desse canteiro sobre o azulejo frio: uma folha sou eu, e as outras, o resto do mundo.
de repente
movo-as com dedos frenéticos e finjo que explico esse tudo isso que me embrulha o espírito, ziguezagueio ilógica, cada vez mais rápida, até derrubá-las no chão.
você ri num susto, enternecido.
e eu meio que esqueço um pouco das angústias de ver e ouvir.
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