quarta-feira, 5 de agosto de 2015


tudo me atravessa
não há descanso, para os vivos, do dia após dia. a realidade – apesar de muito generosa - esgota. não há outra possibilidade de formas, ou qualquer coisa que não sejam cores e gostos e sons e cheiros e dedos e espumas. dormir não descansa, torna-se parte do processo.
o sol terrível.

as fôrmas que nos engatilham para o sempre mesmo caminho...


te mostro como me sinto, o tamanho da confusão.
você de olho doce, mas não decifra bem a sequência nominal das minhas ideias.
estamos naquele restaurante, eu brado - no auge do destempero - contra as cadeiras de plástico.
químicos e engenheiros do petróleo estudaram por toda uma vida para desenvolver verdadeiros monstros do design, em série. cercam-nos de cadeiras e mesas de pânico, levíssimas e eternas, em suas quatro patas. quanta insônia, quantas provas, experiências arriscosas em laboratórios universitários, phd's. e agora cerca de 30 conjuntos plastificados nos encurralam no ambiente familiar.
sentamo-nos à borda do pequeno jardim. ponho umas folhinhas desse canteiro sobre o azulejo frio: uma folha sou eu, e as outras, o resto do mundo.
de repente
movo-as com dedos frenéticos e finjo que explico esse tudo isso que me embrulha o espírito, ziguezagueio ilógica, cada vez mais rápida, até derrubá-las no chão.


você ri num susto, enternecido.
e eu meio que esqueço um pouco das angústias de ver e ouvir.



Escutamos o barulho do trem
a atravessar o meio da neblina das 4:50 da manhã
eu e Matilda, a gata
sobre nosso colchão

A noite tranquila, perdi o medo de estar sozinha
É uma paz
Mesmo pobre, e às vezes, faminta

Olho para as roupas desalinhadas sobre a mala de viagem
A casa minúscula sem mobília
E agradeço por poder ser simples
Por ter tempo de vadiar sobre as estrelas
Pelo pôr-do-sol de ontem
Pelo pôr-do-sol de amanhã

Por saber-me imperfeita
Como as montanhas erodidas
E que tudo dança debaixo do sol

Identifico-me com a ambição das plantas
Com as vontades dos animais