domingo, 15 de março de 2015

café azul





o espanto turquesa ao perceber-me viva

sobre o ombro de gilberto gil,

entardecida



líquida no sofá ultramarino

olhos nos telhados explícitos



sinto o cheiro do estojo de lápis-de-cor,

longínquo



a novidade absurda de estar em carne,

no início

ciliada criança, repentina

protegida pelos monstros olhudos

- que criei, muy simpáticos -




  no papel sulfite








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vitória-régia violácea




 
me meto de braços compridos dend'água
 
tão noturna
 
sob a guarida de vênus
 
e da lua



vitória-régia taciturna
 
de tetas a estourar



ah, mulheres, nos sabemos

o vigor do nosso corpo no espaço

dos nossos pelos de aço

plúmbeas pairando sobre o pescoço

dos cumes mais empinados



o rio me inunda

toda nua



e m'encontro com peixes famintos

céu e algas

pretas lacunas subaquáticas

doces

no meu crânio de vidro

aquário alagado




toda a viscosidade me encanta








.
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telefonema em dia de eclipse




glalce não largue

a alça do mundo

por mais que por vezes



estranhas canções

tecidas, delicadamente, pelo afeto íngreme

se nos acanhem



confie, glaux

soerguidas pelo amor

nós cantaremos sibilantes carinhos



e no bagaço de um descanso muito intenso

-mar, sol, coqueiro, axé e queijo-

dormiremos seguras

sobre a barriga de nossas constelações preferidas



numa gorda madrugada de abril










.
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.

tectônica de plasma




oceânica mancha na tua ânsia,

angustiosinho



enrosquemo-nos ao jeito das baleias



ao jeito das gôndolas,

gânglios aquáticos



trepadeira horizontal

me espalho

tranqui e ladrilho láctea

o fundo da noite




uma mancha azul na tua

ordem



é tempo de abrir a boca ao céu

quando a chuva s'escorregar



não sopremos magma

a fim de calçarmos

prematuros arquipélagos





de beijo em beijo




ausculto uma concha

outra falha tectônica

é sexo

e tentáculo                                                       
                                                                                 à beira







   do amor

e a tarde caía feito um pudim



quanta moleza

no meu corpo de compota








.

a hora das palavras salobras





o que fazer com as palavras mais salobras?



como distingui-las, pescá-las?

tilintam amorfas em furta-cor

diluídas

sobre o leito pastoso

peito do rio



eu não sei nada

da natureza sou citadina

sentadinha neste banco

bloco de concreto

me derramo

pelo sol, rompante asiático



mastigar essas igrejinhas de crepom

que m'interrompem a paisagem?

ou seriam mias protuberâncias não-laicas

a estalar num incômodo?



sonhos caudalosos,

não me contenho feito água

no copo



pacífica até devorar os bichos

que não sabem – esqueceram-se, talvez-

de como se nada,

aos que perderam as barbatanas,

adeus.


estou em poente

o olho puxado do sol

doutro lado da ponte



sem castigo pela vertigem

de ser



e este invento me lava.

idioma do aracnídeo




ela estava sempre atenta à conversa
 

das aranhas com suas redes suas presas

mirrados mosquitinhos

jaziam no canto da sala



enquanto o locutor tagarelo que só

lhe polvilhava os ouvidos de sons sortidos

algo sobre a ficção estar infeccionada

(ela, etérea, em sua secreta colagem)



e as aranhas, interessantíssimas

poupavam suas vítimas

de solilóquios infinitos



abençoados os bichos porque não falam

uma só palavra






.

barriguda



e você está grávida
 

bonita como uma pinha madura

os olhinhos crescentes

fome

de queijo goiabada ostra salsicha

romã



cumbuca de girassóis



um cheiro doce de manhã

pêssego gêmeo



árvore patacuda

os frutos pendem pesados,

suculentos

são seus brincos



sonolenta leoa

no remanso do catre

dorme mas não

descansa o cantinho da boca,

em sonho um encontro

com a criaturinha vindoura






à Gessica Moitinho.

paixão de panturrilhas



ainda bem que na pirambeira esculpiram

no alto do rumo

novidadeiro




tão firmes escadas

para pernocas apaixonadas









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