domingo, 8 de dezembro de 2013

valdir é de leão

cachoeira - 06.12.2013


me ofereceu uma volta em seu barco

cada tábua pregada


com suas mãos




e uns peixes a bordo conosco

de olhinhos parados,


do que rendera a pescaria vespertina




falamos de amor



seu corpo negro, à contraluz

mansa entidade,


largos olhos e peito




amei a tudo o que ele remava



deu-me uma volta de calma

e a distância de uma ponta a outra


da embarcação


el salvador, san salvador -  22.11.2013


amar as nossas próprias perguntas?

ah, isso já ta pra lá de espetacularizado.



amar os azuis - tão tristes - esquecidos entre os pungentes rosas-alaranjados do céu, no pôr-do-dia.
amar as vistas cansadas dos pássaros velhos, e pendurar, em ganchos de cobre, nos lóbulos quentes de minha existência, a plumagem da juventude.

cara, eu não sou a sua mãe


el salvador, san salvador - 22.11.2013

aquele que vai

meter-lhe a pica


com o intento de saudar


seu útero,


em apaixonada obstinação




esse ser entregue e

frenético a mudar


a sorte


de seu colchão




quem sabe seja

num ímpeto


não racionalizado,


quem mais queira


voltar a ser gestado?
el salvador, san salvador -  21.11.2013




as pessoas parecem, quase sempre, compostas por seus rasgos.


um desejo: encarnar numa bela planta, se houver próxima vez.

mover-me sutilmente ao sabor dos ventos, e de preferência... ornamental.


bela. sem fronte, sem funcionalidade.


apenas que se descansem em mim, os olhos de distraídos animais.


planta, livrar-me-ia de pensar, pensar estas coisas todas que hoje me estufam a

cabeça.


todas as plantas têm a graça, a beleza, de nascerem decapitadas.


e fincadas na terra, ou na água (por que não?), talvez vivam o amor em sua

material dependência... o sol, o solo, mais nada.


somente isto: há dias em que eu queria ser planta, compondo um jardim dum

hotel na nicarágua.





hay que comer y respirar.

seria esta a ordem do amor?


o quê amar?


tudo o que alimenta nossa vida-combustão?


os tubérculos do solo para nossos dentes?


os banhos de brisa em dança com os pelos de nossos narizes?


o sal do mar na boca dos afogados?


o sol no ar a tingir nossa pele, castigar nossa preguiça?


o filho na barriga


é fome.
el salvador, san salvador - 20.11. 2013


chupam nossas tetas

como quem busca


- em desespero -


aquele primeiro gozo,


gosto de mãe




em qualquer narina

do mundo


há, em suas


rijas figuras


incontido choro




e se nos pegam de amor?

ah, menina!


segure a chupeta


o babador




que aí vai, teu filho!




depois da transa, da


febril selvageria


o pagão tudo transformará em cristo

e serás tu,


a Virgem a embalar


teu menino,


tua cria.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Vida social expressionista paulistana

São Paulo, maio de 2013.


escrevo por vaidade e a vaidade me cai bem
perto de mim todos os amigos
asseados, dizem-se malditos
falam pelos sovacos e sobrancelhas

o vinho de 20 reais passeia suas espirais de tentáculos
por entre as tintas línguas polidas salivas inéditas assuntando palavras lambidas
ah, o hálito-erudição... é seco e adocicado
timbres frutados mordiscam as beiradas dos assuntos recortados nos livros
e os cospem pro alto
e grasnam suas semi-certezas críticas
cristãos todos eles
todos nós
pregados na cruz do existir, rindo

esse chiclete velho que são as relações superficiais
os ambientes simulacros estufas de gente
gente estufada de si sonhando realizações, legados


os acadêmicos vestem seus palavrórios


conheço o triste cinza da fuligem, nos olhos do dia
o céu imóvel prestes a trincar de tédio
moendo o que resta dos nossos dentes já tão rangidos
o barulho das entranhas palpitando covardia

se acaso a cidade se convertesse em silêncio
poderíamos ouvir essa canção de ruídos que embala nossa existência
os fluidos se movendo estômagos e seus roncos quase ladros
coração

uma mente epiléptica sai nua gritando os arroubos das suas catarses
há quilômetros de bocas cheias falando incompreensões comuns, mastigam rações de pentelhos desses grandes sacudos, os homens que impregnam o mundo com certezas belicistas
a verdade concretada segue a esporrar nos olhos da gente que queira ver
nos gritos agudos de quem perdeu suas retinas

uns afetados farçosos falando de cultura
como broche que se exibe
diante do diploma de mestrado

já dizia o poeta, aquele farto de lirismo comedido
tal qual bilau infantil enrugado
farta estou das existências esquálidas
da pequenez que se dilata e quer ser grandeza
dessa festa de migalhas

me faz vergonha, mundo insosso

roucos espectros abatidos e leitosos
somos nós rastejando pelas cidades
feios nojosos carcomidos
a cada dia convecemo-nos: livres

livres de liberdade, sim

Um conto de barbárie - Parte I

A claridade ia lambendo, uma a uma, as telhas da casa, e as telhas da casa vizinha a esta, e as telhas da casa vizinha à vizinha, e portas e maçanetas, varandas, e graúdas e diminutas janelas, e num contínuo, alumiando toda a rua, fazia-se amarela na fuligem de uma cidade inteira.
O cantar de um rádio-relógio desprende, de forma brusca, Maria de seus sonhos. Cercada pelo corpo de seu marido, ainda desacordado, ela segue seu ritual, atira-se com delicadeza à atmosfera fria de seu quarto, calça as chinelas e as arrasta até a cozinha.
Passa o café. Engole-o de uma vez, sem açúcar.
Já no banheiro, o espelho parece espreitá-la entre os azulejos azuis. De corpo inteiro, sem moldura. Maria veste-se de pele e pêlo para o banho, diante de seu perfeito reflexo, suas carnes corriqueiras, suas cores, suas belas estrias cortavam seu ventre de um lado ao outro, coroando seu profundo umbigo.
Seu cabelo distribuia-se sobre a cabeça, à sua própria maneira. Era crespo, pelas manhãs. Agora, sua raiz crescia à revelia da tintura.
Maria não ligara o chuveiro.
Estática, observava-se.
As pernas, curtas e roliças, povoadas pelo florescer da queratina. Eram árvores, patacudas. Baobás ancestrais, repletos de folhas, seus galhos conquistando os ares.
Via-os crescer, serpenteando, todos os seus pêlos, enrolavam-se sobre ela, enroscavam-se entre si, tomavam seus joelhos, grandes coxas, sua virilha.
O monte de Vênus, coberto de espessa textura, escuro, grossos e soberbos pêlos o habitavam.
Mal se podia ver seus lábios.
Levantou seus braços, e lá estavam, altivos, os tais cabelos, imponentes como as samabaias, nas dobras de seu corpo, petróleo n'água, buracos negros.
Ela toda, uma galáxia.
E de repente amava, cada mancha-nebulosa, cada constelação de sardas, cada póro aberto, cada protuberância infecciosa. Aquele pêlo encravado, acarinhava-o, entendia-o. Nua, era imensa. E como galáxia, compreendeu sua magnitude.
Ouvia seus órgãos movimentarem-se no silêncio azul dos azulejos do banheiro. Imaginava quais seriam as cores de suas tripas. Amava-as.
Seu rosto redondo e comum, era o ponto alto do sistema complexo o qual ela recentemente sabia ser.

Carta para Florent II


Tô bem.
Comprei algumas galinhas, elas criaram dentes e comeram meu juízo, minhas roupas e meu cabelo.
Encomendei dentaduras... e plumas. Estou grávida de ovos por chocar na mente.
Vivemos sem voar, nós animais alados, no quintal, saudando-nos, nesse idioma animalesco, a cabecinha em direção ao milho, espalhado pelo chão, e o milho em direção à cabeça.
Na superfície há o que ciscar.
Há cumprimentos sacudidos pelo ar, ecoando eloquentes, entre milhos-galinhas-galinhas-milhos.
Há barulho, e só.
Uma pena, embaixo do sol, gema amarela... o lirismo é só um punhado de sílabas amorfas, amarfanhadas.
Cínicas cordialidades, ah, as galinhas vão bicando essas incoerências... em vão... se alimentam...

Carta para Florent I

Caro Flo,

O que dizer?
Que há de novo e velho no além-mar, aí?
Ainda lês em português?
Por onde têm pisado teus pés?

Como estão as mirabolantes arquiteturas de teus sonhos?

E o concreto da tua'lma, tem nele chovido?

E os teus cílios, tuas retinas, tuas remelas?
Como vão tuas íris, tuas cicatrizes?
Qual a textura da carne que veste teu esqueleto?
Sobreviveram teus últimos fios de cabelo?

E a tua boca


Miolo perene do mundo

São Paulo, 03 de abril de 2013.


Contraem-se todos os meus quilogramas 
E os átomos, obscenos
Cada qual em seu próprio transe
Desfigurando esse tecido quase abstrato
Sob a luz do teu quarto

Tal como pálpebra,
Meu grelo

Minha xota ostensiva, assalta a noite,
Corre madrugada engolindo afetações
E embalando as concretudes numa doce viscosidade,
Sobrepõe, por sua natureza pantanosa,
Seu perfume ancestral aos novos e estéreis aromas da cidade

É ofensiva, e nada tem de miúda
Corpulenta, se estende quilometrada em seu próprio negrume
Preenche de carne as arquiteturas inóspitas
Derrama seu leito sobre a mesa de jantar das famílias subnutridas

Polpudo buraco negro
Sobre a cama estendido
Miolo perene do mundo
Árvore invertida

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Situação Periclitante






Num mundo submerso, nos correspondíamos. Às escuras, poetas na neblina das relações.
Cabe ainda outro espaço, mais abaixo - submundo - que é a minha fantasia.
À beira de suas praias, passeamos. Nossos corpos engatados ao jeito das sílabas, tão gastas em tudo o que erodimos, contemplando...
Serenos, nos temos.
Cabemos e fluímos na pronúncia do que somos.
Fantasio, em verdade, com teu eu-lírico, e diante de toda essa tua fluência, enternecida emudeço...
E afasto mansamente as coxas de meus versos, para que se façam úmidos na tua bela poesia.

Cachola Quixotesca

Que em sua fluida existência
Não toca
Nem com muito esforço,
A ponta da cauda das gentes-cardumes

Que ora expõe
Seus queixumes,
E sob violáceas tardes, traça
Tecidos de argamassa
Seus devaneios pontiagudos

Da mulher dentuça
As escamas antigas.

Ela, que de humores vem sortida,
Leva-se numa frequência própria
Tão distinta desta escandalosa correnteza...

Corrente, não!

Cor-ren-te, sim...
Adjetivos,
Na cuia do existir, os prefiro.

Cachola Quixotesca,
Diz-me silêncio?
Fechou-se o portal,
Compreendo.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Para os ilustríssimos notáveis e distintos senhores que brilham nas instituições de nosso século


Gerações de comer-cagar-cagar-comer.
Estufados de sua forma-conteúdo, com todas essas estranhas porcarias sempre à boca; dizeres falso-profundos, repugnantes chicletes já gastos.
Vejo sonoras mandíbulas remexendo, pensam-se graciosas, ouço-as: barulho, apenas.
E quanto mais diplomas acumulam, mais estúpidos canudos de veludo no meio de seus ocos fétidos, não, não os supracitados buracos, não... antes os fossem... falo do Vazio, da condição que nos põe a manjares de vermes - nobríssimos vermes, por sinal -, como falo das traças a corroer seus tratados identitários.

Vocês que mastigam e cospem pro alto as suas experiências serão os pais de família de amanhã.

Vamos ao shopping, amor? E aí nos distraímos d'angústia que encerra nosso lar, que perturba nosso sono, que aumenta nossa pança, que nos aperta - miúdos - aos domingos, e nos entupimos de importadas tranqueiras em embrulhos festivos?

Vamos ao shopping, amor? Para esquecermos que já fomos outros, e nos poluímos duma outr'essência - mas tem sorvete no próximo quiosque, que bom!-, e nossos sonhos fizeram-se requintada sorte de frios na geladeira, e aquela sessão de cinema cheirando a ovas e azeite trufado a preencher o que não mais se preenche, o que da vida já foi-nos tomado.

E o aparelho portátil, oráculo aos dedos, a mantê-los bichos cabisbaixos de assuntos banguelos?

E os assuntados - tamanhos ridículos - em seus guetos, discorrendo pomposos seus clichês tão grudentos, tão frágeis, por tédio ou vaidade retórica, esgueirando-se por trás desses escudos acadêmicos...

E a alma?
E os olhos?
E o ver e o tocar e o ser e o contemplar?

Há um abismo entre a aparência dos seres polidos e íntegros e asseados os quais afirmamos ser, e as vulgares criaturas, repetitivas em um charco grotesco de desafinadas e prolixas argumentações, que realmente somos.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

A maior digressão dos últimos tempos

Cachoeira
08.09.13
                                                                       
I

Numa tarde de domingo, dessas que só o Recôncavo sabe fazer, de tampões laranjas nos ouvidos - domingo é o dia oficial dos carros de som na rua - eu tentava estudar aquele introdutório meia-bomba da Chauí.
O café com cevada na caneca, a caneta - tão vagarosa em punho - anotava qualquer coisa sobre as diferentes concepções de Ciência, sem entusiasmo.
Eu, que se não amanhecer inspirada o suficiente para respirar, somente com violento esforço separo minha existência da cama, sinto um absoluto desgosto pelo maquinal, pelas burocracias da vida humana.
Pois bem, lia sem ler, até que uma breve fala sobre Antiguidade fisgou em mim as pupilas do espírito, e tive uma epifania. Extasiada, saltei da cadeira, retirei dos ouvidos os tampões característicos dos trabalhadores que rompem os asfaltos nos onipresentes canteiros de obras nas grandes metrópoles, protegendo seus tímpanos do soar das britadeiras... enfim, corri até a janela. E chovia.

A água salivava o horizonte, Cachoeira.
Eu via o centro da cidade amarelo de sol, quente sua principal igreja. Cá, era um pinga-pinga celestial. Via o morro, outro bairro à esquerda cujas casas desjaneladas quase tocavam a entidade arco-íris, este cortando na diagonal a beleza de minha descoberta.


II

Que sou mais boi que gente, já o desconfiava.
Mas vendo uma cambada de roliços passarinhos cruzando o céu, a chuva e sua coroa policromática, penso no quão anacrônico é o capim de que se alimentam certos seres contemplativos.
Como eu, e todos os outros bovinos.
Investidos numa ancestral cultura de quatro estômagos, estamos sempre a integrar o cenário comum da Terra.
Basta estirar a vista sobre o relento: lá estaremos.
Entre a solidez obscura do solo e os azuis etéreos do céu, pastamos.
Flutuantes sobre a relva, enroscamo-nos em nossas matérias.
E os rabos pendulam relatividades muito além de "sim" e "não".
Graves em nossas patas, somos a arquitetura do perene.
Nosso jeito melancólico de lançarmos o olhar sobre as coisas, mugimos atemporais.
Não temos préstimo, somente somos.
E deitamos cansados sobre a terra o peso de nossas eras - resistimos - e acompanhamos as velhas órbitas deste tão sensível organismo o qual compomos.

E produzimos nossos sacros estrumes: substância da qual nascem as flores-verdades do mundo.

E jazemos sinistros churrascos, em cubinhos nos pratos de robustas senhoras, e instalamo-nos em seus entre-dentes. E quedamos fiapos incômodos.

E após devorados, matâmo-los secretos em suas artérias, matâmo-los no auge de seus apetites, pois jamais aprenderam a ruminar em meio à música digestiva dos Tempos, essa que embala tudo o que vive.

E por não se perceberem vivos, contrários à consonância com que há de mais antigo, ocupam-se em arrancar de nós o couro e tingi-lo e vesti-lo e, ainda agônicos, usam de sua energia tecendo dizeres sobre qualquer verdade de um acessório, agora parte de um braço-existência tão contingente -ela mesma acessório-

e nossa textura os olha do

abismo.