quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Um tal de Atlas

Os móveis estão mais aglomerados no escritório e no quarto de visitas.
Há um povoamento de malas e sacos e roupas e quinquilharias ricas de sentir sobre os ladrilhos frios da garagem.

O improvável bateu à porta com urgência e na casa deixou dois presentes ao pai saudoso.
Os filhos de início perdidos, sem intimidade alguma com as paredes brancas ou com o carpete claro sem solados de calçado, sem saber reconhecer qualquer dinâmica, controlando mãos e pés e comentários introspectivos e mudos... sentados em meio ao silêncio dos talheres orquestrados na mesa. São os filhos de um pai Atlas, que em dias de carne viva, identificaram seu ser icônico, tão humano quanto herói. Uma humanidade admirável por ser a ilustração do maior esforço em resgatar, dia a dia seus conceitos de humanização individual. Isso sim é nobre. E ele sabe.
Os filhos é que confirmaram as suspeitas, e encheram as pupilas de coração. Os olhos eram gotas, singulares, mas cabiam litros em cada unidade. Litros de pai-amor.

A conexão não pode depender de um espaço geográfico, a convivência sim. E a convivência estimula a conexão, ou o ódio que segrega. Mas o ódio não surgiu. Porta perto, porta a porta, diálogos de corredor, de cozinha.
O pai vê suas crias, não mais crias. Mais gente. E vê que bonito, o sentimento não escorregou, dissolveu ou acabou diluído na amargura... não. Querer bem de rir, é aquele abraço na alma, quando os irmãos dividem a alma entre si, e o pai com os irmãos, e com braços e cabeças colados não se sabe quem é pai, quem é irmão. Porque são filhos da mesma dor. No momento da unidade, o plural é um. É a mesma pessoa em quatro pedaços, e os corações brincam de telefone-sem-fio.
O pai encontrou seus filhos. Os filhos encontraram seu pai. E o pai retornou a si. Não mais Atlas, o mundo ele tirou de seus ombros. Ele o abraçou.

7 comentários:

  1. Sou sua primeira seguidora! Agora vc tá ferrada! Hahaha, eu sempre tive blogs... mas tenho um pouco de vergonha, é mais para descontrair, desabafar... e eu adoreei o seu, bem poético e bem sua cara! Se quiser colocar música ou mudar algo, eu te ajudo! Beijos*

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  2. Interessante mas notei uma certa fixação com paredes e me fez pensar que talvez voce se sinta enclausurada rs rs o que paradoxalmente destoa da sua aparente harmonia livre habitual...

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Vc sempre escreveu muito bem!
    Não deixe de escrever, vc tem talento!
    Beijos

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  5. Mais discrição, mas a descrição foi interessante! :o)

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