terça-feira, 10 de setembro de 2013

A maior digressão dos últimos tempos

Cachoeira
08.09.13
                                                                       
I

Numa tarde de domingo, dessas que só o Recôncavo sabe fazer, de tampões laranjas nos ouvidos - domingo é o dia oficial dos carros de som na rua - eu tentava estudar aquele introdutório meia-bomba da Chauí.
O café com cevada na caneca, a caneta - tão vagarosa em punho - anotava qualquer coisa sobre as diferentes concepções de Ciência, sem entusiasmo.
Eu, que se não amanhecer inspirada o suficiente para respirar, somente com violento esforço separo minha existência da cama, sinto um absoluto desgosto pelo maquinal, pelas burocracias da vida humana.
Pois bem, lia sem ler, até que uma breve fala sobre Antiguidade fisgou em mim as pupilas do espírito, e tive uma epifania. Extasiada, saltei da cadeira, retirei dos ouvidos os tampões característicos dos trabalhadores que rompem os asfaltos nos onipresentes canteiros de obras nas grandes metrópoles, protegendo seus tímpanos do soar das britadeiras... enfim, corri até a janela. E chovia.

A água salivava o horizonte, Cachoeira.
Eu via o centro da cidade amarelo de sol, quente sua principal igreja. Cá, era um pinga-pinga celestial. Via o morro, outro bairro à esquerda cujas casas desjaneladas quase tocavam a entidade arco-íris, este cortando na diagonal a beleza de minha descoberta.


II

Que sou mais boi que gente, já o desconfiava.
Mas vendo uma cambada de roliços passarinhos cruzando o céu, a chuva e sua coroa policromática, penso no quão anacrônico é o capim de que se alimentam certos seres contemplativos.
Como eu, e todos os outros bovinos.
Investidos numa ancestral cultura de quatro estômagos, estamos sempre a integrar o cenário comum da Terra.
Basta estirar a vista sobre o relento: lá estaremos.
Entre a solidez obscura do solo e os azuis etéreos do céu, pastamos.
Flutuantes sobre a relva, enroscamo-nos em nossas matérias.
E os rabos pendulam relatividades muito além de "sim" e "não".
Graves em nossas patas, somos a arquitetura do perene.
Nosso jeito melancólico de lançarmos o olhar sobre as coisas, mugimos atemporais.
Não temos préstimo, somente somos.
E deitamos cansados sobre a terra o peso de nossas eras - resistimos - e acompanhamos as velhas órbitas deste tão sensível organismo o qual compomos.

E produzimos nossos sacros estrumes: substância da qual nascem as flores-verdades do mundo.

E jazemos sinistros churrascos, em cubinhos nos pratos de robustas senhoras, e instalamo-nos em seus entre-dentes. E quedamos fiapos incômodos.

E após devorados, matâmo-los secretos em suas artérias, matâmo-los no auge de seus apetites, pois jamais aprenderam a ruminar em meio à música digestiva dos Tempos, essa que embala tudo o que vive.

E por não se perceberem vivos, contrários à consonância com que há de mais antigo, ocupam-se em arrancar de nós o couro e tingi-lo e vesti-lo e, ainda agônicos, usam de sua energia tecendo dizeres sobre qualquer verdade de um acessório, agora parte de um braço-existência tão contingente -ela mesma acessório-

e nossa textura os olha do

abismo.


2 comentários:

  1. Ana, está incrível! Que mistura de Guimarães, Quintana e Cecília Meireles é essa... leio cada linha mais depressa que a outra por conta da curiosidade e do deleite! Muito bom mesmo! Eu ia dizer "continue assim", mas digo o contrário: descontinue! Sempre. Nunca. Rio intermitente. Ria!

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  2. Menina, vou ousar usar palavras:
    as faço tortas
    e ficam nesse comentário muito mais pobres
    diante do etéreo
    o liríco, sincero e profundo
    do arrastar-se como os cascos dos pequenos bovinos pelo mundo
    Seu escrever é lindo
    como são suas entranhas, sapequices e estremiliques
    e sua louca busca de viver sincero mundo
    o faz saltar do abismo
    apoiado em palavras como as tuas
    mirando o sabe-lá-o-que

    o medo, inimigo companheiro
    se dilui no suco gastrico dos ruminares...

    Lindo texto Lu...Você sabe que sempre os adoro...

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